terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem


17/02/2025 - G1 Campinas e Região

Por Aline Nascimento*, G1 Campinas e Região

Prefeitura afirma que a baixa adesão dos usuários foi um dos fatores para a desativação do modal. Em estudo novo projeto propõe retomar o sistema na cidade.


VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem — Foto: Reprodução/EPTV


Quem olha para Campinas (SP) sem a conhecer a fundo, pode até pensar que os meios de transporte sob trilhos fazem parte apenas dos planos futuros da cidade. Porém, a história da metrópole com os vagões começou muito antes do Trem Intercidades.

Com 7,9 km de extensão por oito estações, um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) circulou por Campinas entre 1990 e 1995. Apesar de ter sido o 1º do país, de acordo com a Prefeitura, o sistema nunca alcançou o esperado em relação ao desempenho e ao número de usuários.

Após 30 anos da última viagem do VLT, completados nesta segunda-feira (17), especialistas explicaram ao g1 quais erros do projeto contribuíram para a desativação precoce.

Hipóteses vão das estações em locais de baixa densidade demográfica, até a falta de integração com terminais de ônibus.


VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem — Foto: Reprodução/EPTV


A construção do VLT foi executada pelo Governo do Estado de São Paulo e pela Prefeitura, em parceria com a empresa ferroviária estatal Fepasa. A linha englobou as estações:

Central, Barão de Itapura, Aurélia, Vila Teixeira (feitas na primeira etapa do projeto); e Parque Industrial, Anhanguera, Pompéia e Campos Elíseos (inauguradas em 1993).

O trajeto contou com oito pontos de embarque e desembarque, mas o plano inicial era que fossem 11. O transporte foi desativado antes que as paradas no Curtume, em Joaquim Villac e no Bonfim fossem entregues.

Ainda conforme a Prefeitura, o modal não conseguiu atingir o número de passageiros esperado. Com a capacidade de transportar até 75 mil pessoas, e com a demanda estimada em 20 mil passageiros diários, o sistema não ultrapassou quatro mil usuários por dia.


VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem — Foto: Reprodução/EPTV


Planejamento casado entre solo e o transporte

A construção do VLT reutilizou a antiga malha ferroviária de um trem que passava na região. Naquele momento, o trilho estava obsoleto e sem usabilidade.

Vanessa Bello, professora de arquitetura da PUC-Campinas com especialidade em modais, define que foi "muito importante Campinas ser pioneira" na implementação do modal no Brasil, e que a reutilização da linha férrea foi uma "iniciativa inovadora para época".

Apesar disso, afirma que a localidade das estações foi determinante para a baixa adesão da população.


VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem — Foto: Reprodução/EPTV


"O trecho da ferrovia [que foi adaptada para o VLT] era um trecho pouco habitado do ponto de vista de densidade residencial. Eram trechos ainda que tinham muitos vazios urbanos ao longo dele, próximo das estações, tinha muito uso industrial. Muitas estações desse trecho foram encaixadas na topografia", explica Vanessa.

A professora avalia que o projeto falhou em não considerar a ligação de origem e destino do usuário para definir a localidade de cada estação. Os pontos de embarque e desembarque foram encaixados dentro do trajeto da antiga linha.

"Faltou ligar origem e destino e ao longo das principais estações. Por isso, tem que fazer um planejamento casado entre o uso do solo e o transporte", finaliza.


VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem — Foto: Reprodução/EPTV


Integração com terminais de ônibus

Nenhuma das oito estações fazia integração com algum terminal ou linha de ônibus. Diogenes Contijo, ex-diretor do departamento de estudos e projetos especiais da Fepasa, atuou no VLT entre 1990 e 1992. Ele afirma que, sem a vinculação com outro transporte local, "ele ia morrer mesmo".

"[Ele não teve adesão] exatamente porque não era alimentado por um sistema circular de ônibus urbanos. Não houve essa integração. Se não há essa integração, ele vai morrer mesmo. Não terá demanda", diz.

De acordo com Diogenes, a integração chegou a ser prevista e sugerida, mas nunca saiu do papel. "A prefeitura deveria ter feito um plano de integração com do sistema de ônibus junto às estações para ter a demanda suficiente para manter o sistema operacional".

Ele reitera que a implementação do modal deve ser conjunta com uma facilidade e um estímulo para que a população passe a utilizá-lo, como bolsões de estacionamento de carros de passeio.


VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem — Foto: Reprodução/EPTV


Cultura das rodas e das rodovias

"É uma pena. Campinas poderia ter um modelo de transporte sob trilhos avançado e sofisticado", diz Diógenes, ao expor que percebe um desinteresse em relação aos modais sob trilhos.

Assim como o caminho do VLT utilizou os trilhos de outro projeto, alguns trechos do seu leito foram reciclados. Pavimentados, eles foram adaptados como parte dos corredores do BRT Campo Grande e BRT Perimetral.

Vanessa lamenta que os transportes sob os trilhos não façam parte da vida da população, atualmente.

"Nós temos a região de Campinas em 3 milhões de pessoas, [o total] da população do Uruguai. Nós temos uma macro metrópole paulista com 30 milhões de pessoas, [o total da] população do Canadá. E nós não temos trem ligando [...] Para mim, esse é o retrato do subdesenvolvimento", afirma a professora Vanessa.

A professora também afirma que os trens oferecem menos riscos a vida que uma rodovia, e também dão maior qualidade de vida a população. "Manter um carro é um gasto excessivo com manutenção, com pedágio, com gasolina, com etanol, né? Então assim, essa classe média podia estar gastando esse dinheiro na qualidade de vida com outras coisas"


VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem — Foto: Reprodução/EPTV


O que é um VLT?

O Veículo Leve sobre Trilhos, conhecido pela sigla VLT, é um transporte sob trilhos que funciona em um trajeto segregado, assim como um BRT e um metrô. Sob trilhos e ao nível da rua, ele foi pensado para transportar passageiros em uma viagem mais contínua e rápida, sem precisar parar em semáforos e enfrentar o trânsito.

Apesar da semelhança, o modal é diferente de um trem, que geralmente carrega consigo muitos vagões. Como o próprio nome já diz, ele tem a proposta de ser mais leve.

Campinas foi a primeira cidade a ter um exemplar, mas não foi a última. Após a experiência campineira, cidades como Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Recife (PE) implementaram o modelo em suas ruas.


VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem — Foto: Reprodução/EPTV


VLT Campinas-Sumaré

A experiência de 1990 pode não ser a última. O governo de São Paulo anunciou, em março de 2024, a qualificação de um projeto para implantar um novo VLT entre Campinas e Sumaré (SP). Com um trajeto completamente diferente, ele prevê dois ramais: um de 22 quilômetros de extensão ligando Campinas, Hortolândia e Sumaré outro de 22,4 km entre o Centro da metrópole e o Aeroporto de Viracopos, com ligação direta à estação do futuro trem intercidades

Os investimentos previstos são de R$ 2,6 bilhões, mas não há prazo para implantação.


VLT em Campinas: do pioneirismo ao fracasso, especialistas apontam erros 30 anos após última viagem — Foto: Reprodução/EPTV


*Estagiária sob supervisão de Fernando Evans e Yasmin Castro.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Saiba quantos trens terá a Linha 14-Ônix e intervalo


04/02/2025 - Via Trólebus

Por Renato Lobo

A nova Linha 14-Ônix, que promete conectar Guarulhos e Santo André, contará com uma frota de Veículos Leves sobre Trilhos (VLT).

As audiências públicas da concessão, que também inclui a Linha 10-Turquesa, estão previstas para fevereiro de 2025, nas cidades de São Paulo, Santo André e Guarulhos. A publicação definitiva do edital deve ocorrer em setembro deste ano, com leilão programado para dezembro de 2025.

Frota de VLT

Nos documentos da consulta pública, foi revelado que a frota total será composta por 46 VLTs, incluindo 5 unidades de contingência para o trecho 4, que compreende o percurso entre as estações ABC e Jardim Irene.

Cada VLT terá capacidade para 440 passageiros, comprimento máximo de 45 metros, velocidade de até 80 km/h e acessibilidade com piso baixo, seguindo as normas da ABNT.


Divulgação governo de São Paulo


No trecho entre São Miguel Paulista e Rio das Pedras, o intervalo entre os trens poderá ser de cinco minutos, indicando que será o segmento mais movimentado da linha. Esse trecho terá integração com as Linhas 12-Safira, 11-Coral e 3-Vermelha, além da futura conexão com a Linha 16-Violeta.

Demanda

A Secretaria de Parcerias e Investimentos estima uma demanda de 225 mil passageiros por dia. No trecho inicial, entre Hospital Jardim Helena e Rio das Pedras, a previsão é de 79 mil passageiros diários em um cenário projetado para 2040.

A concessionária responsável pela operação da linha deverá realizar as obras das novas estações, que contarão com plataformas laterais, bloqueios e mezaninos em desnível, garantindo acessibilidade universal em todas as paradas.